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A Imitação de Cristo: O Espelho da Alma e o Caminho Real da Cruz

Por Codex Cristão | Tempo de Leitura Estimado: 35 min

Há livros que lemos para passar o tempo; há livros que lemos para ganhar conhecimento; e há livros que lemos para que eles nos leiam. “A Imitação de Cristo” (De Imitatione Christi), escrito no século XV pelo monge agostiniano Tomás de Kempis, pertence a essa última e rara categoria.

Diz-se, com razão histórica, que este é o livro mais publicado, traduzido e lido do mundo cristão depois da Bíblia Sagrada. De São Inácio de Loyola a John Wesley, de Dietrich Bonhoeffer a C.S. Lewis, gigantes de todas as tradições beberam desta fonte.

Mas por que um manual monástico, escrito para noviços em um mosteiro nos Países Baixos, continua a ressoar na era do iPhone e da autoajuda?

Nesta análise profunda, adotaremos uma abordagem “Chestertoniana”: vamos olhar para este livro não como um triste tratado de autoflagelação, mas como um grito de sanidade em um mundo louco de narcisismo. Vamos descobrir que a “humilhação” proposta por Kempis é, na verdade, a única escada para a grandeza, e que “desprezar o mundo” é a única maneira de realmente amá-lo corretamente.

I. O Contexto: A Revolução Silenciosa da Devotio Moderna

Para entender Kempis, precisamos entender o solo onde ele pisava. Ele fazia parte dos “Irmãos da Vida Comum”, um movimento conhecido como Devotio Moderna. No século XV, a teologia havia se tornado um jogo intelectual árido. Os escolásticos debatiam quantos anjos cabiam na ponta de uma agulha, enquanto o povo morria de fome espiritual.

Kempis e seus irmãos propuseram um retorno radical à simplicidade do Evangelho.

  • Menos Especulação, Mais Afeto: O objetivo não era saber definições sobre Deus, mas amar a Deus.

  • Cristocentrismo: O foco total na humanidade e na divindade de Jesus.

  • Interioridade: A verdadeira religião acontece dentro do coração, não nas pompas externas.

Kempis, um copista de manuscritos (ele copiou a Bíblia inteira à mão quatro vezes!), escreveu este livro como uma colcha de retalhos de versículos bíblicos e sabedoria dos Padres do Deserto. É um livro que cheira a cela de monge, a incenso e a silêncio.

II. A Estrutura da Obra: A Anatomia da Santidade

O livro é dividido em quatro partes, que funcionam como uma escada ascendente para a união com Deus.

Livro I: Admoestações Úteis à Vida Espiritual

Aqui, Kempis faz o diagnóstico do paciente. Ele ataca a “Vanglória” do mundo.

“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade, exceto amar a Deus e só a Ele servir.” Kempis nos convida a um “santo desencanto”. Ele argumenta que buscar a felicidade nas coisas criadas (dinheiro, fama, prazer) é como tentar matar a sede bebendo água salgada.

Livro II: Admoestações Relativas à Vida Interior

Uma vez que nos desapegamos do exterior, voltamo-nos para dentro. Kempis ensina a arte da amizade com Jesus. Ele diz que Jesus é um amante ciumento que não aceita dividir o trono do coração.

“Quando Jesus está presente, tudo é bom e nada parece difícil; mas quando Jesus está ausente, tudo é duro.”

Livro III: A Consolação Interior (O Diálogo)

Esta é a parte mais longa e mística. O formato muda. Não é mais Kempis falando conosco; é um diálogo dramático entre A Voz de Cristo e a Voz da Alma (O Discípulo). Aqui, Jesus ensina sobre a Graça e a Natureza, sobre como suportar injúrias e sobre a paz que excede o entendimento.

Livro IV: O Sacramento do Altar (A Eucaristia)

O ápice da união. Kempis trata da Comunhão não como um rito, mas como o encontro físico e espiritual com o Amado. Ele enfatiza a necessidade de pureza e reverência para se aproximar da mesa do Senhor.

III. Temas Teológicos: O Paradoxo Chestertoniano de Kempis

Como alguém que olha o mundo através das lentes de G.K. Chesterton, vejo em A Imitação de Cristo não um pessimismo, mas um Realismo Místico. Vamos analisar os temas centrais sob essa luz.

1. O Anti-Intelectualismo? (Saber vs. Ser)

Uma das frases mais famosas de Kempis é:

“Prefiro sentir a compunção a saber a sua definição.”

Críticos modernos acusam Kempis de ser anti-intelectual. Isso é falso. Kempis era um erudito. O que ele ataca é a Soberba Intelectual. Chesterton diria que Kempis está defendendo a sanidade. O louco pode ter a teoria perfeita, mas o santo tem a experiência real. De que adianta saber explicar a Trindade se você é orgulhoso e vai para o inferno? A Lição: A teologia deve levar à doxologia (adoração), ou é inútil.

2. A “Estrada Real da Santa Cruz”

No Livro II, Capítulo 12, Kempis escreve um dos textos mais belos da literatura cristã: “De Regia Via Sanctae Crucis” (Da Estrada Real da Santa Cruz).

Ele argumenta que não existe outro caminho para o céu a não ser a cruz.

  • O mundo moderno quer um Cristo sem Cruz. Quer a ressurreição sem o calvário.

  • Kempis diz: “Jesus tem muitos que amam o seu reino celeste, mas poucos que carregam a sua cruz.”

O Paradoxo: Kempis nos mostra que fugir da cruz é encontrar uma cruz mais pesada (a cruz do egoísmo, da ansiedade e do vazio). Abraçar a cruz de Cristo, paradoxalmente, torna o fardo leve. É no morrer que se vive. É na humilhação que se é exaltado.

3. Natureza vs. Graça

No Livro III, Kempis faz um contraste brilhante entre os movimentos da Natureza (o homem caído) e da Graça (o homem novo).

  • A Natureza: Busca o lucro, o elogio, o conforto, a vingança. É astuta, gira em torno de si mesma.

  • A Graça: Busca Deus, o ocultamento, o sacrifício, o perdão. É simples, gira em torno de Deus.

Isso é pura antropologia bíblica (Carne vs. Espírito). Kempis desmascara nossas motivações “santas”. Quantas vezes fazemos o bem esperando reconhecimento? Isso é Natureza disfarçada. A Graça faz o bem e se esconde.

IV. A Psicologia de Kempis: O Combate ao Narcisismo

Se Freud “descobriu” o ego no século XX, Kempis já o havia dissecado e condenado no século XV. A Imitação de Cristo é o maior tratado contra o narcisismo já escrito.

O homem moderno vive na “Cultura do Eu”.

  • “Siga seu coração.”

  • “Acredite em você mesmo.”

  • “Você é o suficiente.”

Kempis olha para isso e ri (ou chora). Ele diz:

  • “Não confie em seu próprio sentimento.”

  • “Você é pó e ao pó voltará.”

  • “O amor de si mesmo é o que mais te prejudica.”

Parece duro? Sim, como uma cirurgia é dura. Kempis quer extirpar o câncer do amor-próprio para que possamos ser preenchidos pelo Amor Divino. Chesterton diria que o homem que está cheio de si mesmo é um homem muito pequeno, pois está preso dentro de um crânio. O homem que se esvazia de si mesmo torna-se tão grande quanto o universo, pois Deus o preenche.

V. Por Que o Livro Incomoda Tanto? (A “Ofensa” Necessária)

Ler A Imitação de Cristo hoje é levar um tapa na cara. Ele ofende nossa sensibilidade democrática e humanista. Ele nos chama de “vermes” (no sentido de fragilidade), diz que “toda carne é feno”.

Mas é uma ofensa medicinal. Vivemos drogados com entretenimento e elogios vazios. Kempis é o sal de amônio que nos acorda do desmaio. Ele nos lembra que vamos morrer. Ele nos lembra que a opinião dos outros é vento. Ele nos lembra que, no final, só restará você e Deus.

“Não és mais santo se te louvam, nem mais vil se te vituperam. O que és, isso és; e não podes ser maior do que Deus te vê.”

Essa frase é libertadora! Ela nos cura da dependência da aprovação alheia.

VI. Como Ler Kempis no Século XXI: Um Guia Prático

Não leia A Imitação de Cristo como você lê um romance. Leia como você toma um remédio potente: em pequenas doses.

  1. Leitura Devocional: Leia um capítulo curto (eles têm 2 ou 3 páginas) por dia.

  2. Apropriação: Quando ele usar a palavra “monge”, leia “cristão”. Quando ele falar de “cela”, leia “meu quarto” ou “meu coração”.

  3. Oração: Transforme o texto em oração. O livro foi escrito de joelhos e só pode ser entendido de joelhos.

Para o leitor do Codex Cristão, protestante ou católico, este livro é o terreno comum. É onde nos encontramos para admitir que somos falhos e que Cristo é tudo.

Conclusão: A Paz na Tempestade

Em um mundo de ansiedade, Kempis oferece a Paz. Mas não a paz que o mundo dá (ausência de problemas). Ele oferece a paz que vem da Rendição. A ansiedade vem de querer controlar o incontrolável. Kempis nos ensina a soltar as rédeas e dizer: “Seja feita a vossa vontade, e não a minha”.

No final, A Imitação de Cristo não é sobre a dor; é sobre o Amor. Um amor tão intenso que está disposto a sofrer qualquer coisa para estar com o Amado. Como diria Chesterton: “O Cristianismo não foi tentado e considerado falho; ele foi considerado difícil e não foi tentado.” Kempis é o homem que tentou. E ele nos diz: Vale a pena.

Citações de Ouro de Tomás de Kempis

  • “O homem propõe, mas Deus dispõe.”

  • “Se te parece que sabes muito e compreendes muito, tem por certo que é muito mais o que ignoras.”

  • “Quem ama, voa, corre e se alegra; é livre e nada o retém.”

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